Quinta-feira, Setembro 11, 2008
agora sinto... e vejo sons
E o tom de azul não faz diferença para quem é cego.
Sexta-feira, Outubro 19, 2007
Palavras Cansadas
A casa que é feita por ele toda vez que nos vemos é linda! Ele não sabe fazer, mas faz, sempre (sempre que não sabe que estou olhando). Linda por isso, pela falha vinda do esforço e por uma ingenuidade cruel. Me conforta e acabo por entender tudo o que vem tentando me dizer. Já eu, nunca vou conseguir dizer tudo o que desejo, mesmo se as palavras existissem, mesmo se o meu olhar fosse vivo o suficiente, não bastaria. Eu nunca poderia olhá-lo com olhos embaçados e tristes, não olhos. E ele volta a dizer "Há tempos não consigo ser mais eu”.
Quinta-feira, Agosto 09, 2007
À Tarde
A cabeça dele estava aberta e um pouco esmagada do lado esquerdo, perto da orelha. De dentro da cabeça saiam coisas que ela não podia dizer o que eram. Ainda estava tudo muito vermelho, pelo visto os médicos ainda não tinham tido tempo de limpar, nem o lençol branco tinham colocado em cima do corpo. Se tinham muitas pessoas na sala ela não sabia, se estava frio ou se tinham outros mortos em sua volta, também não. O que realmente ela tinha certeza era de que não sentia cheiro algum, era uma sensação tão estranha que por alguns segundos pensou que havia parado de respirar. Seus olhos estavam atraídos para aquele corpo em frente a ela, principalmente para a cabeça daquele corpo, que há poucas horas, talvez minutos, ainda poderia ser chamado de pessoa. Agora, de fato, não podia mais. Esse pensamento não foi muito fácil de ser absorvido por sua própria mente, mas um segundo pensamento veio para justificar a crueldade do primeiro, não era fácil ver um crânio destroçado em sua frente e menos fácil ainda associar aquela massa vermelha e cinza à vida, a algo com vida muito próximo a ela. Se ele nunca ia voltar a ser uma pessoa novamente, para ela, pouco importava naquele momento. Era a primeira vez que ela via um morto. Era a primeira vez que ela via tanto sangue. Assim como era a primeira vez que via um pedaço do que ela julgava ser cérebro cair no chão. E foi quando ela estava ali, sem conseguir reconhecer quem ela deveria reconhecer, que o poder da imagem se sobrepôs ao do sentimento.
Agora, já na rua, em frente a um sinal de trânsito, não conseguia atravessar. Parou e fechou os olhos. A imagem da cabeça voltou a sua mente, mas ela não tentou espantá-la, pelo contrário, a cultivou. Ficou parada, analisando-a. De fato a imagem que chegava a sua cabeça já era uma outra versão da original, ela havia diminuído a quantidade de sangue e aumentado a quantidade da massa cinzenta que saía de dentro de um ferimento muito maior. Imagem original ou modificada pela memória não importava, o importante é que ela não havia esquecido, não conseguia e não queria esquecer. Era preciso se lembrar daquela imagem chocante, assim todos os sentimentos permaneceriam ainda presos em seu corpo.
Ela continuava ali parada, no meio fio de uma rua do centro da cidade, em frente a faixa de pedestres, pronta para atravessar a rua e seguir sua vida, mas não, não fazia isso. O movimento era grande e mesmo assim ninguém parecia notar a mulher parada no meio da rua. Afinal, era normal, há muito tempo as pessoas deixaram de tomar conta da vida dos outros. Na verdade, há muito tempo as pessoas haviam desistido de notar as outras, o que, nesse caso, dava uma vantagem enorme à ela, já que tudo que ela menos gostaria era ser notada naquele momento de intimidade.
Continuando a alimentar aquela imagem sem vida, porém não esgotada, ela começou a sentir o cheiro. Forte e azedo, que não só obrigava ela a fazer uma cara feia, mas entrava queimando seus pulmões. Não era cheiro de lixo ou de escapamento de ônibus, era cheiro de morto. Cheiro de morto que ela não havia sentido quando estivera em frente ao morto, mas que agora se mostrava correto. Apropriado para que cada vez mais a imagem em sua cabeça ficasse real, mais real do que a própria realidade havia sido. E o que era a realidade naquele momento? De certo não era a morte. Era o que ela decidiu tomar por realidade. Um crânio partido no meio é bem menos real do que a morte.
Lembrou do pedaço de cérebro empapado de sangue caído entre seus pés e a realidade construída por ela fugiu. Por alguns segundos ela quase se desesperou. Pois um cérebro caído no pé de alguém era uma imagem muito irreal, mas não impossível, que só a vida poderia fornecer. Portanto, se a imagem criada por sua mente era mais real do que a imagem apresentada pela vida, ela só podia pensar na irrealidade da vida. Ainda mais, pensava que a realidade da vida era algo que não existia. Já que a realidade, como ela pensava naquele momento, estava diretamente ligada ao atual. E ela estava parada, de olhos fechados, com todos os músculos imóveis, anulando tudo que estava a sua volta e tentando tornar real uma imagem em sua cabeça. Sim, a realidade era algo completamente manipulável.
Mais uma vez a imagem voltou a seus olhos, sem que ela a invocasse, e enquanto estava lá, sendo analisada por seu inconsciente, depois de pensamentos sobre a vida, ela, naturalmente, só pode repensar a morte. Se a realidade da vida não existia, a da morte tão pouco, pelo menos não pra quem continuava vivo. Ela não poderia chorar por aquela morte, não conseguia chorar. O corpo era uma prisão no final das contas, como já havia pensado. E não era por falta de um corpo que ela teria de perder alguém que amava. O espírito dele ainda estava ali: sua mente. E a memória dela ainda estava lá, viva. E enquanto ela tivesse uma mente, um espírito, sua própria realidade, a morte dele, daquele corpo, não poderia significar nada.
Ficou ali parada por mais alguns minutos, queria continuar a ignorar tudo que acontecia a sua volta, como um treino. A imagem já não importava tanto para ela, mas não saía de sua cabeça, não sairia nunca mais e ela sabia disso. Fez algumas considerações mentais sobre o seu dia até então. E ao contrário daquele que pára na primeira vez que pensa, ela andou. Ela havia pensando sobre certas coisas pela primeira vez vida, mas andou. Era, realmente, uma contradição, muito difícil de entender. Correu pela rua onde estava, no sentido contrário ao estacionamento onde se econtrava seu carro. Correu mais uns quatro quarteirões e foi diminuindo o passo até chegar no quinto, onde pegou um táxi.
O táxi estava parado em uma rua tranqüila do subúrbio da cidade. Uma rua arborizada, comprida, estreita e que mais a frente subia e se transformava em uma ladeira, majoritariamente ocupada por casas, com dois ou três prédios que ficavam bem longe de onde o táxi estava parado. Ventava bastante, o que dificultava ainda mais sua procura por dinheiro, o cabelo teimava em tapar seus olhos e sua respiração e quanto mais ela tentava afastar o cabelo de seu rosto, mais o vento o jogava para lá. As árvores estavam bastante inquietas com o vento, tanto que fizeram chover pela rua pequenas flores, deixando todo o asfalto, os carros, os telhados das casas e os cabelos das pessoas com cor de sangue. Finalmente ela achou o dinheiro e entregou na mão do motorista que já estava um pouco impaciente. O carro sumiu dois segundos depois. Ela andou pela rua, até quase no ponto em que a subida começava. Parou em um prédio pequeno, de dois andares, com poucas janelas na fachada. Tocou a campainha, levou algum tempo até ser atendida, mas não se preocupou, continuou ali parada, como se soubesse que logo iam atender o interfone. E atenderam, ela se identificou e prontamente a pequena porta a sua frente se abriu. Subiu um lance de escadas, virou a esquerda. Uma porta estava aberta e um homem se apoiava no portal, como se esperasse aquela mulher há séculos. Ela passou por ele e entrou no apartamento. Andou rápido pela sala e quase flutuou quando passava pelo corredor. Quando se sentou na cama, o homem, alto e forte, já estava na porta do quarto, olhando para ela. A mulher começou a se despir, tirando primeiro os sapatos, fazendo o contrário do que a maioria das mulheres fazia naquele lugar, tirando a roupa de baixo pra cima. Ele tirou os sapatos quando ela já estava nua, em pé, na sua frente. Ele parou e os dois se olharam por alguns minutos. A mulher, como se estivesse com os movimentos retardados por algum tipo de droga foi se abaixando aos poucos e deitou na cama. Nua, abriu os braços e fechou os olhos.
Rinocerontes Choram Diamantes
Então, os olhos que tanto procuravam, de tanto correr atrás, acharam. Acharam um animal. Animal grande e, segundo Olhos, não muito bonito. Animal de pele velha, meio cinza. E Olhos passaram rápidos por ele.
No dia seguinte Olhos viu o tal animal mais um vez. Mas dessa vez, que súbito, Olhos se encantou. Viu no animal o que achara que nunca encontraria em alguém e muito menos
E Olhos parou. Não conseguia mais se mover por minutos, muitos. Ela queria ter aqueles olhos. Não era inveja, mas era claro que ela precisava mais dos olhos do que aquele animal.
Ela agora precisava ter aqueles olhos. Era necessário, era tão necessário quanto nascer. E andou calmamente. Olhos rodeava o animal como a criança que, com muita fome, espera a comida ficar pronta. Até que Animal surpreendentemente falou com ela, perguntou o que queria menina tão bonita perto de bicho tão feio. E em um impulso de sinceridade que olhos nunca pensou que ia ter na vida. Seus olhos, quero seus olhos. Animal se assustou. E fez Olhos tremer, tremer de pena e de um nojo que começaram a tomar conta dela bem na hora que ele começou a chorar. E Animal não chorava lágrimas, chorava pedras pequeninas e brilhantes, que para ela eram a representação de toda a fraqueza daquele bicho. Aqueles olhos tinham de ser dela. E quando fossem nunca mais chorarinham pedacinhos de vidro. Os olhos que Olhos queria, se fossem dela, iam chorar rios de lágrimas vivas, salgadas e líquidas.
Animal se aproximou e disse que os olhos seriam dela, se ela realmente os quisesse. Que ela tinha sido a única pessoa que tinha tido coragem de pedir. E que eles não tinham muita serventia para um bicho tão estranho como ele. Olhos não se fez por rogada, arrancou os olhos do Animal e não deu os seus em troca.
Correu, correu....com os olhos bem apertados na palma da mão. Se sentindo maior do que era. A um passo da porta da eternidade. Olhos se sentou no pé de um ávore. E foi alí que trocou. Tirou os seus olhos vividos sem viver e botou no lugar aqueles olhos frescos cheios de profundidade.
E olhos foi vivendo. Vivendo. E enquanto vivia percebia que o choro duro do Bicho não era fraqueza. Que aquele choro era próprio dos olhos, de seus olhos agora. Talvez uma penalidade, uma penalidade por possuir olhos tão cheios de alma. Por ter olhos que bastavam por si só. Que não presisavam de pernas, nem braços e muito menos cérebros. E esses olhos santificados eram olhos de rinocerontes. E foi a partir daí que Olhos descobriu que rinocerontes choravam diamantes. E a partir de Olhos que pessoas passaram a chorar assim também. Mas só quando estão sozinhas e no escuro absoluto.
Terça-feira, Janeiro 09, 2007
Estrelas Cadentes
Terça-feira, Julho 18, 2006
a imagem reproduzida no infinito
Amanhece em uma cidade qualquer. A neblina toma conta da paisagem. Vemos nuvens e antenas. Vemos vozes e o vento.
Quarta-feira, Julho 12, 2006
Uma Mulher
It´s A Very Deep Sea
Uma Manhã Diferente
Natália Indiretamente Livre
Mercadorias
do caso de depender
conto 01- sem título- 22.03.05
[continua]


