Quinta-feira, Setembro 11, 2008


agora sinto... e vejo sons

O estranho é que o final realmente havia passado, foi o que todos pensaram, os créditos subiram de forma mais rápida que o normal, nem assim as luzes se acenderam. A grande nuvem negra que costumava nos acompanhar foi embora, deixando em seu lugar uma escuridão cinza, onde só podiam ser vistas pessoas e nada mais. As estações se passaram e como de costume não pudemos sentir. Meus olhos já não me pertenciam mais, era só um instrumento para que os outros se sentissem notados, um aparato externo onde os personagens desse e de outros contos podiam existir e se movimentar nos espaços vazios de cinza. E durante todo esse tempo foi assim que outros existiram para mim. Mais e mais estações imperceptíveis se passaram sem que uma única pudesse ser justa para aquelas pessoas mal construídas que brotavam em profusão diante daqueles Olhos que não eram de ninguém. Agora já se movimentavam mesmo sozinhos, buscando sempre a melhor posição para que esses personagens pudessem existir da melhor forma, sem que nunca precisassem me olhar. Eu também não olhava para eles, quem olhava eram os Olhos, eu, como alma, era só um suporte para Eles. Um dia duas portas foram abertas. Algumas bocas se abriram junto, a escuridão cinza havia ido embora e os olhos voltaram a ser meus. Pessoas direcionavam o olhar para mim, caminhavam em minha direção como se conseguissem me ver, como se as luzes tivessem sido acesas após os créditos. Todos em minha volta faziam perguntas, me apontavam, conversavam ao pé do ouvido, alguns até me tocavam para ver se realmente eu era feito de carne... e era. Aos poucos aprendi a falar e a reagir. Logo depois aprendi a sorrir, muito mais difícil foi arrancar sorrisos dessas pessoas, mas aos poucos até isso foi feito. Agora víamos as estações, mesmo que de fato elas não existissem. Pude ver os dias passando, diferenciar a luz do dia e a da noite, sentir o calor do luar estacionado acima do teto que nos dava alento. Aos poucos laços foram criados. Aos poucos comecei a pensar, uma alma foi sendo construída dentro de mim. E foi após o término dessa frágil construção, que está sempre a ponto de desmoronar, que fiquei cego.

E o tom de azul não faz diferença para quem é cego.

Sexta-feira, Outubro 19, 2007

Palavras Cansadas

A casa que é feita por ele toda vez que nos vemos é linda! Ele não sabe fazer, mas faz, sempre (sempre que não sabe que estou olhando). Linda por isso, pela falha vinda do esforço e por uma ingenuidade cruel. Me conforta e acabo por entender tudo o que vem tentando me dizer. Já eu, nunca vou conseguir dizer tudo o que desejo, mesmo se as palavras existissem, mesmo se o meu olhar fosse vivo o suficiente, não bastaria. Eu nunca poderia olhá-lo com olhos embaçados e tristes, não olhos. E ele volta a dizer "Há tempos não consigo ser mais eu”.

Quinta-feira, Agosto 09, 2007

À Tarde

A cabeça dele estava aberta e um pouco esmagada do lado esquerdo, perto da orelha. De dentro da cabeça saiam coisas que ela não podia dizer o que eram. Ainda estava tudo muito vermelho, pelo visto os médicos ainda não tinham tido tempo de limpar, nem o lençol branco tinham colocado em cima do corpo. Se tinham muitas pessoas na sala ela não sabia, se estava frio ou se tinham outros mortos em sua volta, também não. O que realmente ela tinha certeza era de que não sentia cheiro algum, era uma sensação tão estranha que por alguns segundos pensou que havia parado de respirar. Seus olhos estavam atraídos para aquele corpo em frente a ela, principalmente para a cabeça daquele corpo, que há poucas horas, talvez minutos, ainda poderia ser chamado de pessoa. Agora, de fato, não podia mais. Esse pensamento não foi muito fácil de ser absorvido por sua própria mente, mas um segundo pensamento veio para justificar a crueldade do primeiro, não era fácil ver um crânio destroçado em sua frente e menos fácil ainda associar aquela massa vermelha e cinza à vida, a algo com vida muito próximo a ela. Se ele nunca ia voltar a ser uma pessoa novamente, para ela, pouco importava naquele momento. Era a primeira vez que ela via um morto. Era a primeira vez que ela via tanto sangue. Assim como era a primeira vez que via um pedaço do que ela julgava ser cérebro cair no chão. E foi quando ela estava ali, sem conseguir reconhecer quem ela deveria reconhecer, que o poder da imagem se sobrepôs ao do sentimento.

Agora, já na rua, em frente a um sinal de trânsito, não conseguia atravessar. Parou e fechou os olhos. A imagem da cabeça voltou a sua mente, mas ela não tentou espantá-la, pelo contrário, a cultivou. Ficou parada, analisando-a. De fato a imagem que chegava a sua cabeça já era uma outra versão da original, ela havia diminuído a quantidade de sangue e aumentado a quantidade da massa cinzenta que saía de dentro de um ferimento muito maior. Imagem original ou modificada pela memória não importava, o importante é que ela não havia esquecido, não conseguia e não queria esquecer. Era preciso se lembrar daquela imagem chocante, assim todos os sentimentos permaneceriam ainda presos em seu corpo.

Ela continuava ali parada, no meio fio de uma rua do centro da cidade, em frente a faixa de pedestres, pronta para atravessar a rua e seguir sua vida, mas não, não fazia isso. O movimento era grande e mesmo assim ninguém parecia notar a mulher parada no meio da rua. Afinal, era normal, há muito tempo as pessoas deixaram de tomar conta da vida dos outros. Na verdade, há muito tempo as pessoas haviam desistido de notar as outras, o que, nesse caso, dava uma vantagem enorme à ela, já que tudo que ela menos gostaria era ser notada naquele momento de intimidade.

Continuando a alimentar aquela imagem sem vida, porém não esgotada, ela começou a sentir o cheiro. Forte e azedo, que não só obrigava ela a fazer uma cara feia, mas entrava queimando seus pulmões. Não era cheiro de lixo ou de escapamento de ônibus, era cheiro de morto. Cheiro de morto que ela não havia sentido quando estivera em frente ao morto, mas que agora se mostrava correto. Apropriado para que cada vez mais a imagem em sua cabeça ficasse real, mais real do que a própria realidade havia sido. E o que era a realidade naquele momento? De certo não era a morte. Era o que ela decidiu tomar por realidade. Um crânio partido no meio é bem menos real do que a morte.

Lembrou do pedaço de cérebro empapado de sangue caído entre seus pés e a realidade construída por ela fugiu. Por alguns segundos ela quase se desesperou. Pois um cérebro caído no pé de alguém era uma imagem muito irreal, mas não impossível, que só a vida poderia fornecer. Portanto, se a imagem criada por sua mente era mais real do que a imagem apresentada pela vida, ela só podia pensar na irrealidade da vida. Ainda mais, pensava que a realidade da vida era algo que não existia. Já que a realidade, como ela pensava naquele momento, estava diretamente ligada ao atual. E ela estava parada, de olhos fechados, com todos os músculos imóveis, anulando tudo que estava a sua volta e tentando tornar real uma imagem em sua cabeça. Sim, a realidade era algo completamente manipulável.

Mais uma vez a imagem voltou a seus olhos, sem que ela a invocasse, e enquanto estava lá, sendo analisada por seu inconsciente, depois de pensamentos sobre a vida, ela, naturalmente, só pode repensar a morte. Se a realidade da vida não existia, a da morte tão pouco, pelo menos não pra quem continuava vivo. Ela não poderia chorar por aquela morte, não conseguia chorar. O corpo era uma prisão no final das contas, como já havia pensado. E não era por falta de um corpo que ela teria de perder alguém que amava. O espírito dele ainda estava ali: sua mente. E a memória dela ainda estava lá, viva. E enquanto ela tivesse uma mente, um espírito, sua própria realidade, a morte dele, daquele corpo, não poderia significar nada.

Ficou ali parada por mais alguns minutos, queria continuar a ignorar tudo que acontecia a sua volta, como um treino. A imagem já não importava tanto para ela, mas não saía de sua cabeça, não sairia nunca mais e ela sabia disso. Fez algumas considerações mentais sobre o seu dia até então. E ao contrário daquele que pára na primeira vez que pensa, ela andou. Ela havia pensando sobre certas coisas pela primeira vez vida, mas andou. Era, realmente, uma contradição, muito difícil de entender. Correu pela rua onde estava, no sentido contrário ao estacionamento onde se econtrava seu carro. Correu mais uns quatro quarteirões e foi diminuindo o passo até chegar no quinto, onde pegou um táxi.

O táxi estava parado em uma rua tranqüila do subúrbio da cidade. Uma rua arborizada, comprida, estreita e que mais a frente subia e se transformava em uma ladeira, majoritariamente ocupada por casas, com dois ou três prédios que ficavam bem longe de onde o táxi estava parado. Ventava bastante, o que dificultava ainda mais sua procura por dinheiro, o cabelo teimava em tapar seus olhos e sua respiração e quanto mais ela tentava afastar o cabelo de seu rosto, mais o vento o jogava para lá. As árvores estavam bastante inquietas com o vento, tanto que fizeram chover pela rua pequenas flores, deixando todo o asfalto, os carros, os telhados das casas e os cabelos das pessoas com cor de sangue. Finalmente ela achou o dinheiro e entregou na mão do motorista que já estava um pouco impaciente. O carro sumiu dois segundos depois. Ela andou pela rua, até quase no ponto em que a subida começava. Parou em um prédio pequeno, de dois andares, com poucas janelas na fachada. Tocou a campainha, levou algum tempo até ser atendida, mas não se preocupou, continuou ali parada, como se soubesse que logo iam atender o interfone. E atenderam, ela se identificou e prontamente a pequena porta a sua frente se abriu. Subiu um lance de escadas, virou a esquerda. Uma porta estava aberta e um homem se apoiava no portal, como se esperasse aquela mulher há séculos. Ela passou por ele e entrou no apartamento. Andou rápido pela sala e quase flutuou quando passava pelo corredor. Quando se sentou na cama, o homem, alto e forte, já estava na porta do quarto, olhando para ela. A mulher começou a se despir, tirando primeiro os sapatos, fazendo o contrário do que a maioria das mulheres fazia naquele lugar, tirando a roupa de baixo pra cima. Ele tirou os sapatos quando ela já estava nua, em pé, na sua frente. Ele parou e os dois se olharam por alguns minutos. A mulher, como se estivesse com os movimentos retardados por algum tipo de droga foi se abaixando aos poucos e deitou na cama. Nua, abriu os braços e fechou os olhos.

Rinocerontes Choram Diamantes

Quando ainda existia uma menina que tinha olhos. Uns olhos de nove anos que corriam atrás. Poderiam ter corrido atrás de mim se a tivesse conhecido. Poderiam ter te aprisionado dentro deles. Os olhos de nove anos mais velhos que você poderia ter visto. Pesados e caídos, quase formando bolsas, que só a avó dela tinha. Olhos de choro sem chorar, não tinha pra que. Olhos de sofrimento sem sofrer, não tinha como. Olhos de sono dormindo o dia todo.
Então, os olhos que tanto procuravam, de tanto correr atrás, acharam. Acharam um animal. Animal grande e, segundo Olhos, não muito bonito. Animal de pele velha, meio cinza. E Olhos passaram rápidos por ele.
No dia seguinte Olhos viu o tal animal mais um vez. Mas dessa vez, que súbito, Olhos se encantou. Viu no animal o que achara que nunca encontraria em alguém e muito menos em algo. Era de uma calma e de uma sabedoria que abriram o coração de Olhos, a fez pensar que era possível ser feliz num dia de chuva, ou num domingo, ou num domingo chuvoso até. Olhos viu os olhos do animal.
E Olhos parou. Não conseguia mais se mover por minutos, muitos. Ela queria ter aqueles olhos. Não era inveja, mas era claro que ela precisava mais dos olhos do que aquele animal.
Ela agora precisava ter aqueles olhos. Era necessário, era tão necessário quanto nascer. E andou calmamente. Olhos rodeava o animal como a criança que, com muita fome, espera a comida ficar pronta. Até que Animal surpreendentemente falou com ela, perguntou o que queria menina tão bonita perto de bicho tão feio. E em um impulso de sinceridade que olhos nunca pensou que ia ter na vida. Seus olhos, quero seus olhos. Animal se assustou. E fez Olhos tremer, tremer de pena e de um nojo que começaram a tomar conta dela bem na hora que ele começou a chorar. E Animal não chorava lágrimas, chorava pedras pequeninas e brilhantes, que para ela eram a representação de toda a fraqueza daquele bicho. Aqueles olhos tinham de ser dela. E quando fossem nunca mais chorarinham pedacinhos de vidro. Os olhos que Olhos queria, se fossem dela, iam chorar rios de lágrimas vivas, salgadas e líquidas.
Animal se aproximou e disse que os olhos seriam dela, se ela realmente os quisesse. Que ela tinha sido a única pessoa que tinha tido coragem de pedir. E que eles não tinham muita serventia para um bicho tão estranho como ele. Olhos não se fez por rogada, arrancou os olhos do Animal e não deu os seus em troca.
Correu, correu....com os olhos bem apertados na palma da mão. Se sentindo maior do que era. A um passo da porta da eternidade. Olhos se sentou no pé de um ávore. E foi alí que trocou. Tirou os seus olhos vividos sem viver e botou no lugar aqueles olhos frescos cheios de profundidade.
E olhos foi vivendo. Vivendo. E enquanto vivia percebia que o choro duro do Bicho não era fraqueza. Que aquele choro era próprio dos olhos, de seus olhos agora. Talvez uma penalidade, uma penalidade por possuir olhos tão cheios de alma. Por ter olhos que bastavam por si só. Que não presisavam de pernas, nem braços e muito menos cérebros. E esses olhos santificados eram olhos de rinocerontes. E foi a partir daí que Olhos descobriu que rinocerontes choravam diamantes. E a partir de Olhos que pessoas passaram a chorar assim também. Mas só quando estão sozinhas e no escuro absoluto.

Terça-feira, Janeiro 09, 2007

Estrelas Cadentes

Uma folha caída no chão, molhada de orvalho da noite que já se acabava. A fumaça saía das bocas de todos aqueles jovens rapazes com as almas descalças. Todas as bocas se abriam como em um balé de bocejos, a fumaça levantava e alguns olhavam para o alto, acompanhando-a, e vendo a última estrela que ainda brilhava no céu. Estavam todos ali, toda a sorte de nomes masculinos imagináveis, sentados calados, num momento único em que todos compartilhavam a mesma experiência. O momento em que as palavras eram ordenadamente silenciadas. Aos poucos todos aqueles quase homens ali presentes foram ficando solitários em seus silêncios. E em seus pensamentos, sozinhos no meio da multidão, essas crianças derrubavam as poucas máscaras que já cultivavam. Intimidade era criada através do silêncio e da distância de pensamentos. Assim como tal contradição aproximava pessoas tão distintas, o frio naquela cidade, originalmente muito quente, deixava todos um pouco medrosos. Só que do final daquela plataforma, uma quase estação de trem abandonada, vinha a Coragem, ela era negra e muito magra, sorria como quem tinha capacidade de amar todos naquele lugar. Do estômago da Coragem ressoavam explosões, essas explosões, que a corroíam por dentro, faziam com que ela apenas vivesse, e eram a única coisa.

Terça-feira, Julho 18, 2006

a imagem reproduzida no infinito

A luz transforma. Na mente eu guardo imagens que se congelam e se tranformam em outras, que se desfazem e surgem novamente do infinito. A história já deixou de existir, na verdade deixou de ser importante, ela se perde e é esquecida com o tempo. O que importa agora é a vida, é o que se vê. A pele fala. A pele sente e vê. E as peles vêem de forma completamente diferente. E o que não é real se transforma em real. A ilusão não está em outro lugar que não dentro de cada um. Como as cores que não existem, estão esperando que um dispositivo seja acionado para cair sobre os telhados. As ondas do mar continuam dançando e fazendo música.
Amanhece em uma cidade qualquer. A neblina toma conta da paisagem. Vemos nuvens e antenas. Vemos vozes e o vento.

Quarta-feira, Julho 12, 2006

Uma Mulher

As tantas pernas me assustam, sei que as perderei mais rápido do que possa querer. Talvez me sobre, um dia, umas duas, uma, talvez. E depois de muito tempo, quando eu já tiver uma somente, talvez meia, o tempo vai se tornar tranquilo e malicioso, assim como hoje, quando eu tenho todas.A vida sempre esteve muito clara para mim. Sempre, desde muito pequena, buscando o mais fundo na minha memória, já na idade mais tenra e impulsiva, eu soube o que estava acontecendo a minha volta e, ainda melhor, soube arquitetar, elaborar equações matemáticas dignas de gênios gregos. Reunir e moldar a paixão, o desejo, a impulsividade, o temor, tudo o que consciente ou inconscientemente formam a fraqueza de um ser humano, para me tornar dona.E assim eu vivi durante anos, até hoje vivo. Foi por isso que as pernas e os pêlos que crescem a cada dia mais pelo meu corpo surgiram. Eles são a consequência de mim e ao mesmo tempo a razão pela qual eu, mulher, vivo e sou forte em minha existência.As pernas, que me assustam por sua quantidade e pela sensação de ser que me dão, vão cair. Os pêlos vão ficar, eles vão nascer cada vez mais e os levarei para o caixão. E quando eu estiver estendida e de braços cruzados, a quantidade dos meus pêlos dirá o quanto eu soube usar o meu talento em existir.Porque eu vivo.

It´s A Very Deep Sea

Todo dia eu olhava pela janela, via as pessoas correndo em círculos, vermelhas por causa do esforço; com os shorts e camisetas suadas elas paravam, se apoiavam com as mãos sobre o joelho, respiravam três vezes e voltavam a correr.A morte ainda está longe, mas alguma coisa dentro de mim me faz pensar nela todos os dias. A escada despencou certa vez, quando ainda era muito pequeno, quebrei dois dentes e o dedo mindinho da mão esquerda. Depois de algum tempo, com os dentes colados e os pequenos ossos encaixados, voltei a subir na mesma escada, voltei a cair, dessa vez sem quebrar nada.Ela estava linda com o vestido vermelho, disse para eu me cuidar e logo depois, sem conseguir esboçar uma lágrima sequer, saiu. Olhei pela janela e fiquei a observar, ela estava com um andar meio torto, a perna esquerda parecia ser mais lenta que a direita, talvez um salto fosse maior que o outro. O vento balançava os seus curtos cabelos negros e eu continuei admirando-a, mesmo quando ela já não estava mais por lá.Vinte, trinta, dezesseis anos...o que importa não é isso.“Me deixe ser absorvida pela vida” me disseram certa vez. Dei a última tragada no penúltimo cigarro e olhei para o lado.A tarde caía, o céu estava avermelhado, os poucos raios solares que restavam vinham se arrastando pela superfície do mar até chegar no ponto onde estávamos sentados, era ali que eles paravam. Adormeci profundamente.Durante quatro anos eu vivi fora do país. Conheci muita gente diferente, de países diferentes, que falavam línguas diferentes, essas pessoas sabiam exatamente quem eu sou.

Uma Manhã Diferente

Era a manhã do dia seguinte, o quarto estava totalmente silencioso, exceto pelo barulho de sua respiração, que só ela podia escutar. O dia nublado não podia iluminar o quarto, a gata estava quieta, tinha parado de respirar, parecia que havia desistido da vida por um tempo.Acordou aos poucos como se não quisesse deixar de sonhar e preferisse ficar o dia inteiro na cama, mas ela não queria, os sonhos não tinham a mínima importância pra quem os esquece. E logo, a preguiça aparente se transformou numa vivacidade há muito não vista, numa vontade de ser o mundo outra vez. Seus pulmões se encheram de ar, era jovem. Ela precisava sair daquele lugar antes que tivesse filhos, ficasse gorda e cansada dela mesma. Deu um pulo da cama e correu até a porta que estava fechada. Olhou para a janela e se sentiu a menor criatura do mundo, sozinha, na sala escura da própria casa, sem poder sair. Mas sua cabeça estava trabalhando num ritmo que ela desconhecia. E sua alma havia adquirido uma grandeza muito maior do que aquele lugar e as pessoas que moravam nele, era outra. Foi quando pensou que o resto de sua vida dependia dos dois andares que separavam a janela da sala do chão da rua. Pulou.

Natália Indiretamente Livre

Ela usa drogas? Natália tentava se concentrar, precisava escrever o texto em discurso indireto livre, mas não conseguia. As pessoas não paravam de falar, saíam a todo momento e tinha a menina que não parava de diminuir a temperatura do ar condicionado. Eu acho que ela usa drogas. Como alguém pode sentir tanto calor assim? Olhou para a menina e viu que ela não usava nada mais que uma camiseta e uma saia. Uma saia. Será que o problema estava não com a menina calorenta e sim com ela? Se olhou com toda aquela roupa, calça de um jeans grosso, camisa de manga comprida e casaco. Casaco! Tirou o casaco e arregaçou as mangas. Não, ela não podia pensar se estava ou não sentindo frio pela cabeça de outra pessoa. Vestiu o casaco. Pronto, definitivamente ela não conseguia mais escrever. E o pior é que ainda não tinha saido do primeiro parágrafo. Tentou por mais dois minutos ainda, não tinha jeito. Pousou a caneta em cima do caderno. Olhou para a caneta e viu que a ponta estava junstamente em cima da frase "Tirou o casaco e arregaçou as mangas.". E foi o que ela fez.

Mercadorias

Uma delas não é ela. Uma delas é o que escolheu ser. É a vontade que se manifestou em não ser. E essa, que não é ela, é mais ela que as outras. Ela se quis. O exagero. E ela vai falar mais. Trepar mais. Querer viver mais. Sempre. Querer viver a vida que ela mesma criou. E você vai se apaixonar. Dar presentes. Pagar motel. Faltar a apresentação de teatro do filho pequeno. Talvez até dirá palavras de carinho. E ela vai gostar. Vai sentir medo e ciúme. Vai passar a ser cada vez mais ela. Aquela ela sem exageros. A ela original. A ela como a que você tem em casa. E um dia, a ela que não era ela e que aos poucos você foi transformando na ela bruta, dirá: Casa comigo! e você vai responder não.

do caso de depender

Eu seguia uma luz branca. Eu não tentava alcançá-la, eu ia na direção que ela estava indo, ela andava e eu andava atrás, ela parava e eu parava, queria mesmo era chegar aonde ela queria, deveria, ou podia chegar. Parava quando ela parava e andava em círculos quando ela andava. Quando ela corria eu corria atrás e quando eu perdia o fôlego ela parava, parecia que me esperava. Mudava de cor com bastante frêquencia também. Já no final saiu do azul e voltou a ser branca, um branco mais forte que o anterior, que refletido nos meus olhos iluminou toda a rua. Logo tudo voltou a ficar escuro outra vez, sentei no meio fio e acendi um cigarro.

conto 01- sem título- 22.03.05

Eu havia chegado em casa há mais ou menos uma hora atrás e no momento em que ela abriu a porta eu já tinha tomado banho, comido qualquer coisa, e assim que escutei o barulho de seus passos pelo corredor foi esperá-la perto da porta. Abriu a porta, jogou as chaves na mesa do telefone, que ficava bem ao lado, e não pareceu nem um pouco surpresa por me ver ali parado, olhando para ela, como se estivesse há horas só a espera de sua chegada e na ânsia de dizer que a amava. Fechou a porta por trás de si, jogou a bolsa pelo chão e já começou a se despir.- É bom frisar que eu era um grande admirador de Ana, ela sempre me surpreendia, não que ela não fizesse esse tipo de coisa com frequência ou que fosse recatada demais para, nem um nem outro, era de um despudor lindo e gostava de fazer essas brincadeiras comigo quase que com frequência, mas ela sabia exatamente quando e como fazer, sempre quando eu menos esperava e sempre de uma forma que mexia comigo de uma maneira diferente da anterior, e tudo sem nenhum esforço, com a naturalidade de uma pessoa que atravessa a cozinha e vai até a geladeira para matar a sede. Ana era foda!- Depois de ficar completamente nua ela veio andando em minha direção, eu já estava completamente entregue a ela, dominado, faria tudo que me pedisse, mesmo que quisesse me bater, me matar de tanta dor, eu a deixaria, o amor e o amor misturado com o tesão que eu sentia por ela, como era o que estava acontecendo, me deixavam em um estado de insanidade muitas vezes incontrolável. E ela continuava vindo em minha direção, linda e branca, com aqueles seios macios e firmes, que provavelmente nunca até então deveriam ter precisado de um sutiã. E foi com essa visão e com o pensamento de que aqueles seios eram a representação do que ela era, de sua personalidade, que me senti agarrar.


[continua]

Sábado, Julho 23, 2005

É O RABO QUE CORRE ATRÁS

Os jovens que andam por aí e sentam na praça Chuva caindo de manhã na cabeça de quem não dormiu a noite inteira tentando pensar num jeito de se esconder do mundo E quantas noites sem dormir e quantas manhãs chuvosas tinham sido Fernando e Isaura continuavam se amando juntos separados escondidos E a todo momento eu me sentia como Marcos mas não eu não podia amar Isaura Eu amava Fernando Sempre amara Fernando E as noites sem fim se transformavam em manhãs chuvosas antes mesmo que se pudesse notar As noites sem fins eram rápidas e as manhãs chuvosas bem lentas Andava por pontes que cresciam que giravam e que a cada movimento me levavam pra um lugar totalmente diferente mundos escondidos bem na minha frente e que nunca tinha podido avistar Pessoas completamente diferentes das minhas pessoas Eu queria abraçar beijar levar pra casa ter um filho com tudo quanto é pessoa que via em todas as viradas de todas as pontes E a cada filho que tivesse eu ia ser uma pessoa diferente A cada conversa numa madrugada eternamente rápida eu ia ser uma pessoa diferente E eu ia mudando a cada respirar Em toda parada pro descanso eu sou outro E a cada parada que eu dou e percebo que é o rabo que corre atrás do cachorro e não o contrário eu não sou outro eu sou tantos que nem caibo dentro do que seria eu originalmente E nas ruas que eu percorro E nos marginais que também passaram a eterna madrugada rápida procurando não serem eles por pura opção As pontes continuam a girar devagar as vezes e tão pulsantes em outras que me deixam tonto As ruas são velhas fedem de uma beleza que só o olho do humano mais puro pode captar E passam uma sensação de liberdade que só o humano mais sujo pode captar Eu pisava os pés nos nomes mais bonitos que eu já havia visto Pisava não só em pessoas famosas mas no sol também A aurora era linda e com ela vinham caranguejos e postes E na Rua da Saudade tinha um cinema pornô E do cinema saía gente de tudo quanto é tipo Homens de tudo quanto é tipo Os gordos saiam rindo Os velhos conversando Os adolescentes escondidos E no saudoso cinema notava-se que tinha gosto pra tudo Tem gente que gosta de gozar na cara tem gente que gosta de ser gozado Tem gente que gosta de ser fodido por um punho outros se contentam com um pau bem grande E muitos nem isso só gostam de olhar mesmo