It´s A Very Deep Sea
Todo dia eu olhava pela janela, via as pessoas correndo em círculos, vermelhas por causa do esforço; com os shorts e camisetas suadas elas paravam, se apoiavam com as mãos sobre o joelho, respiravam três vezes e voltavam a correr.A morte ainda está longe, mas alguma coisa dentro de mim me faz pensar nela todos os dias. A escada despencou certa vez, quando ainda era muito pequeno, quebrei dois dentes e o dedo mindinho da mão esquerda. Depois de algum tempo, com os dentes colados e os pequenos ossos encaixados, voltei a subir na mesma escada, voltei a cair, dessa vez sem quebrar nada.Ela estava linda com o vestido vermelho, disse para eu me cuidar e logo depois, sem conseguir esboçar uma lágrima sequer, saiu. Olhei pela janela e fiquei a observar, ela estava com um andar meio torto, a perna esquerda parecia ser mais lenta que a direita, talvez um salto fosse maior que o outro. O vento balançava os seus curtos cabelos negros e eu continuei admirando-a, mesmo quando ela já não estava mais por lá.Vinte, trinta, dezesseis anos...o que importa não é isso.“Me deixe ser absorvida pela vida” me disseram certa vez. Dei a última tragada no penúltimo cigarro e olhei para o lado.A tarde caía, o céu estava avermelhado, os poucos raios solares que restavam vinham se arrastando pela superfície do mar até chegar no ponto onde estávamos sentados, era ali que eles paravam. Adormeci profundamente.Durante quatro anos eu vivi fora do país. Conheci muita gente diferente, de países diferentes, que falavam línguas diferentes, essas pessoas sabiam exatamente quem eu sou.

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