Terça-feira, Julho 18, 2006

a imagem reproduzida no infinito

A luz transforma. Na mente eu guardo imagens que se congelam e se tranformam em outras, que se desfazem e surgem novamente do infinito. A história já deixou de existir, na verdade deixou de ser importante, ela se perde e é esquecida com o tempo. O que importa agora é a vida, é o que se vê. A pele fala. A pele sente e vê. E as peles vêem de forma completamente diferente. E o que não é real se transforma em real. A ilusão não está em outro lugar que não dentro de cada um. Como as cores que não existem, estão esperando que um dispositivo seja acionado para cair sobre os telhados. As ondas do mar continuam dançando e fazendo música.
Amanhece em uma cidade qualquer. A neblina toma conta da paisagem. Vemos nuvens e antenas. Vemos vozes e o vento.

Quarta-feira, Julho 12, 2006

Uma Mulher

As tantas pernas me assustam, sei que as perderei mais rápido do que possa querer. Talvez me sobre, um dia, umas duas, uma, talvez. E depois de muito tempo, quando eu já tiver uma somente, talvez meia, o tempo vai se tornar tranquilo e malicioso, assim como hoje, quando eu tenho todas.A vida sempre esteve muito clara para mim. Sempre, desde muito pequena, buscando o mais fundo na minha memória, já na idade mais tenra e impulsiva, eu soube o que estava acontecendo a minha volta e, ainda melhor, soube arquitetar, elaborar equações matemáticas dignas de gênios gregos. Reunir e moldar a paixão, o desejo, a impulsividade, o temor, tudo o que consciente ou inconscientemente formam a fraqueza de um ser humano, para me tornar dona.E assim eu vivi durante anos, até hoje vivo. Foi por isso que as pernas e os pêlos que crescem a cada dia mais pelo meu corpo surgiram. Eles são a consequência de mim e ao mesmo tempo a razão pela qual eu, mulher, vivo e sou forte em minha existência.As pernas, que me assustam por sua quantidade e pela sensação de ser que me dão, vão cair. Os pêlos vão ficar, eles vão nascer cada vez mais e os levarei para o caixão. E quando eu estiver estendida e de braços cruzados, a quantidade dos meus pêlos dirá o quanto eu soube usar o meu talento em existir.Porque eu vivo.

It´s A Very Deep Sea

Todo dia eu olhava pela janela, via as pessoas correndo em círculos, vermelhas por causa do esforço; com os shorts e camisetas suadas elas paravam, se apoiavam com as mãos sobre o joelho, respiravam três vezes e voltavam a correr.A morte ainda está longe, mas alguma coisa dentro de mim me faz pensar nela todos os dias. A escada despencou certa vez, quando ainda era muito pequeno, quebrei dois dentes e o dedo mindinho da mão esquerda. Depois de algum tempo, com os dentes colados e os pequenos ossos encaixados, voltei a subir na mesma escada, voltei a cair, dessa vez sem quebrar nada.Ela estava linda com o vestido vermelho, disse para eu me cuidar e logo depois, sem conseguir esboçar uma lágrima sequer, saiu. Olhei pela janela e fiquei a observar, ela estava com um andar meio torto, a perna esquerda parecia ser mais lenta que a direita, talvez um salto fosse maior que o outro. O vento balançava os seus curtos cabelos negros e eu continuei admirando-a, mesmo quando ela já não estava mais por lá.Vinte, trinta, dezesseis anos...o que importa não é isso.“Me deixe ser absorvida pela vida” me disseram certa vez. Dei a última tragada no penúltimo cigarro e olhei para o lado.A tarde caía, o céu estava avermelhado, os poucos raios solares que restavam vinham se arrastando pela superfície do mar até chegar no ponto onde estávamos sentados, era ali que eles paravam. Adormeci profundamente.Durante quatro anos eu vivi fora do país. Conheci muita gente diferente, de países diferentes, que falavam línguas diferentes, essas pessoas sabiam exatamente quem eu sou.

Uma Manhã Diferente

Era a manhã do dia seguinte, o quarto estava totalmente silencioso, exceto pelo barulho de sua respiração, que só ela podia escutar. O dia nublado não podia iluminar o quarto, a gata estava quieta, tinha parado de respirar, parecia que havia desistido da vida por um tempo.Acordou aos poucos como se não quisesse deixar de sonhar e preferisse ficar o dia inteiro na cama, mas ela não queria, os sonhos não tinham a mínima importância pra quem os esquece. E logo, a preguiça aparente se transformou numa vivacidade há muito não vista, numa vontade de ser o mundo outra vez. Seus pulmões se encheram de ar, era jovem. Ela precisava sair daquele lugar antes que tivesse filhos, ficasse gorda e cansada dela mesma. Deu um pulo da cama e correu até a porta que estava fechada. Olhou para a janela e se sentiu a menor criatura do mundo, sozinha, na sala escura da própria casa, sem poder sair. Mas sua cabeça estava trabalhando num ritmo que ela desconhecia. E sua alma havia adquirido uma grandeza muito maior do que aquele lugar e as pessoas que moravam nele, era outra. Foi quando pensou que o resto de sua vida dependia dos dois andares que separavam a janela da sala do chão da rua. Pulou.

Natália Indiretamente Livre

Ela usa drogas? Natália tentava se concentrar, precisava escrever o texto em discurso indireto livre, mas não conseguia. As pessoas não paravam de falar, saíam a todo momento e tinha a menina que não parava de diminuir a temperatura do ar condicionado. Eu acho que ela usa drogas. Como alguém pode sentir tanto calor assim? Olhou para a menina e viu que ela não usava nada mais que uma camiseta e uma saia. Uma saia. Será que o problema estava não com a menina calorenta e sim com ela? Se olhou com toda aquela roupa, calça de um jeans grosso, camisa de manga comprida e casaco. Casaco! Tirou o casaco e arregaçou as mangas. Não, ela não podia pensar se estava ou não sentindo frio pela cabeça de outra pessoa. Vestiu o casaco. Pronto, definitivamente ela não conseguia mais escrever. E o pior é que ainda não tinha saido do primeiro parágrafo. Tentou por mais dois minutos ainda, não tinha jeito. Pousou a caneta em cima do caderno. Olhou para a caneta e viu que a ponta estava junstamente em cima da frase "Tirou o casaco e arregaçou as mangas.". E foi o que ela fez.

Mercadorias

Uma delas não é ela. Uma delas é o que escolheu ser. É a vontade que se manifestou em não ser. E essa, que não é ela, é mais ela que as outras. Ela se quis. O exagero. E ela vai falar mais. Trepar mais. Querer viver mais. Sempre. Querer viver a vida que ela mesma criou. E você vai se apaixonar. Dar presentes. Pagar motel. Faltar a apresentação de teatro do filho pequeno. Talvez até dirá palavras de carinho. E ela vai gostar. Vai sentir medo e ciúme. Vai passar a ser cada vez mais ela. Aquela ela sem exageros. A ela original. A ela como a que você tem em casa. E um dia, a ela que não era ela e que aos poucos você foi transformando na ela bruta, dirá: Casa comigo! e você vai responder não.

do caso de depender

Eu seguia uma luz branca. Eu não tentava alcançá-la, eu ia na direção que ela estava indo, ela andava e eu andava atrás, ela parava e eu parava, queria mesmo era chegar aonde ela queria, deveria, ou podia chegar. Parava quando ela parava e andava em círculos quando ela andava. Quando ela corria eu corria atrás e quando eu perdia o fôlego ela parava, parecia que me esperava. Mudava de cor com bastante frêquencia também. Já no final saiu do azul e voltou a ser branca, um branco mais forte que o anterior, que refletido nos meus olhos iluminou toda a rua. Logo tudo voltou a ficar escuro outra vez, sentei no meio fio e acendi um cigarro.

conto 01- sem título- 22.03.05

Eu havia chegado em casa há mais ou menos uma hora atrás e no momento em que ela abriu a porta eu já tinha tomado banho, comido qualquer coisa, e assim que escutei o barulho de seus passos pelo corredor foi esperá-la perto da porta. Abriu a porta, jogou as chaves na mesa do telefone, que ficava bem ao lado, e não pareceu nem um pouco surpresa por me ver ali parado, olhando para ela, como se estivesse há horas só a espera de sua chegada e na ânsia de dizer que a amava. Fechou a porta por trás de si, jogou a bolsa pelo chão e já começou a se despir.- É bom frisar que eu era um grande admirador de Ana, ela sempre me surpreendia, não que ela não fizesse esse tipo de coisa com frequência ou que fosse recatada demais para, nem um nem outro, era de um despudor lindo e gostava de fazer essas brincadeiras comigo quase que com frequência, mas ela sabia exatamente quando e como fazer, sempre quando eu menos esperava e sempre de uma forma que mexia comigo de uma maneira diferente da anterior, e tudo sem nenhum esforço, com a naturalidade de uma pessoa que atravessa a cozinha e vai até a geladeira para matar a sede. Ana era foda!- Depois de ficar completamente nua ela veio andando em minha direção, eu já estava completamente entregue a ela, dominado, faria tudo que me pedisse, mesmo que quisesse me bater, me matar de tanta dor, eu a deixaria, o amor e o amor misturado com o tesão que eu sentia por ela, como era o que estava acontecendo, me deixavam em um estado de insanidade muitas vezes incontrolável. E ela continuava vindo em minha direção, linda e branca, com aqueles seios macios e firmes, que provavelmente nunca até então deveriam ter precisado de um sutiã. E foi com essa visão e com o pensamento de que aqueles seios eram a representação do que ela era, de sua personalidade, que me senti agarrar.


[continua]