À Tarde
A cabeça dele estava aberta e um pouco esmagada do lado esquerdo, perto da orelha. De dentro da cabeça saiam coisas que ela não podia dizer o que eram. Ainda estava tudo muito vermelho, pelo visto os médicos ainda não tinham tido tempo de limpar, nem o lençol branco tinham colocado em cima do corpo. Se tinham muitas pessoas na sala ela não sabia, se estava frio ou se tinham outros mortos em sua volta, também não. O que realmente ela tinha certeza era de que não sentia cheiro algum, era uma sensação tão estranha que por alguns segundos pensou que havia parado de respirar. Seus olhos estavam atraídos para aquele corpo em frente a ela, principalmente para a cabeça daquele corpo, que há poucas horas, talvez minutos, ainda poderia ser chamado de pessoa. Agora, de fato, não podia mais. Esse pensamento não foi muito fácil de ser absorvido por sua própria mente, mas um segundo pensamento veio para justificar a crueldade do primeiro, não era fácil ver um crânio destroçado em sua frente e menos fácil ainda associar aquela massa vermelha e cinza à vida, a algo com vida muito próximo a ela. Se ele nunca ia voltar a ser uma pessoa novamente, para ela, pouco importava naquele momento. Era a primeira vez que ela via um morto. Era a primeira vez que ela via tanto sangue. Assim como era a primeira vez que via um pedaço do que ela julgava ser cérebro cair no chão. E foi quando ela estava ali, sem conseguir reconhecer quem ela deveria reconhecer, que o poder da imagem se sobrepôs ao do sentimento.
Agora, já na rua, em frente a um sinal de trânsito, não conseguia atravessar. Parou e fechou os olhos. A imagem da cabeça voltou a sua mente, mas ela não tentou espantá-la, pelo contrário, a cultivou. Ficou parada, analisando-a. De fato a imagem que chegava a sua cabeça já era uma outra versão da original, ela havia diminuído a quantidade de sangue e aumentado a quantidade da massa cinzenta que saía de dentro de um ferimento muito maior. Imagem original ou modificada pela memória não importava, o importante é que ela não havia esquecido, não conseguia e não queria esquecer. Era preciso se lembrar daquela imagem chocante, assim todos os sentimentos permaneceriam ainda presos em seu corpo.
Ela continuava ali parada, no meio fio de uma rua do centro da cidade, em frente a faixa de pedestres, pronta para atravessar a rua e seguir sua vida, mas não, não fazia isso. O movimento era grande e mesmo assim ninguém parecia notar a mulher parada no meio da rua. Afinal, era normal, há muito tempo as pessoas deixaram de tomar conta da vida dos outros. Na verdade, há muito tempo as pessoas haviam desistido de notar as outras, o que, nesse caso, dava uma vantagem enorme à ela, já que tudo que ela menos gostaria era ser notada naquele momento de intimidade.
Continuando a alimentar aquela imagem sem vida, porém não esgotada, ela começou a sentir o cheiro. Forte e azedo, que não só obrigava ela a fazer uma cara feia, mas entrava queimando seus pulmões. Não era cheiro de lixo ou de escapamento de ônibus, era cheiro de morto. Cheiro de morto que ela não havia sentido quando estivera em frente ao morto, mas que agora se mostrava correto. Apropriado para que cada vez mais a imagem em sua cabeça ficasse real, mais real do que a própria realidade havia sido. E o que era a realidade naquele momento? De certo não era a morte. Era o que ela decidiu tomar por realidade. Um crânio partido no meio é bem menos real do que a morte.
Lembrou do pedaço de cérebro empapado de sangue caído entre seus pés e a realidade construída por ela fugiu. Por alguns segundos ela quase se desesperou. Pois um cérebro caído no pé de alguém era uma imagem muito irreal, mas não impossível, que só a vida poderia fornecer. Portanto, se a imagem criada por sua mente era mais real do que a imagem apresentada pela vida, ela só podia pensar na irrealidade da vida. Ainda mais, pensava que a realidade da vida era algo que não existia. Já que a realidade, como ela pensava naquele momento, estava diretamente ligada ao atual. E ela estava parada, de olhos fechados, com todos os músculos imóveis, anulando tudo que estava a sua volta e tentando tornar real uma imagem em sua cabeça. Sim, a realidade era algo completamente manipulável.
Mais uma vez a imagem voltou a seus olhos, sem que ela a invocasse, e enquanto estava lá, sendo analisada por seu inconsciente, depois de pensamentos sobre a vida, ela, naturalmente, só pode repensar a morte. Se a realidade da vida não existia, a da morte tão pouco, pelo menos não pra quem continuava vivo. Ela não poderia chorar por aquela morte, não conseguia chorar. O corpo era uma prisão no final das contas, como já havia pensado. E não era por falta de um corpo que ela teria de perder alguém que amava. O espírito dele ainda estava ali: sua mente. E a memória dela ainda estava lá, viva. E enquanto ela tivesse uma mente, um espírito, sua própria realidade, a morte dele, daquele corpo, não poderia significar nada.
Ficou ali parada por mais alguns minutos, queria continuar a ignorar tudo que acontecia a sua volta, como um treino. A imagem já não importava tanto para ela, mas não saía de sua cabeça, não sairia nunca mais e ela sabia disso. Fez algumas considerações mentais sobre o seu dia até então. E ao contrário daquele que pára na primeira vez que pensa, ela andou. Ela havia pensando sobre certas coisas pela primeira vez vida, mas andou. Era, realmente, uma contradição, muito difícil de entender. Correu pela rua onde estava, no sentido contrário ao estacionamento onde se econtrava seu carro. Correu mais uns quatro quarteirões e foi diminuindo o passo até chegar no quinto, onde pegou um táxi.
O táxi estava parado em uma rua tranqüila do subúrbio da cidade. Uma rua arborizada, comprida, estreita e que mais a frente subia e se transformava em uma ladeira, majoritariamente ocupada por casas, com dois ou três prédios que ficavam bem longe de onde o táxi estava parado. Ventava bastante, o que dificultava ainda mais sua procura por dinheiro, o cabelo teimava em tapar seus olhos e sua respiração e quanto mais ela tentava afastar o cabelo de seu rosto, mais o vento o jogava para lá. As árvores estavam bastante inquietas com o vento, tanto que fizeram chover pela rua pequenas flores, deixando todo o asfalto, os carros, os telhados das casas e os cabelos das pessoas com cor de sangue. Finalmente ela achou o dinheiro e entregou na mão do motorista que já estava um pouco impaciente. O carro sumiu dois segundos depois. Ela andou pela rua, até quase no ponto em que a subida começava. Parou em um prédio pequeno, de dois andares, com poucas janelas na fachada. Tocou a campainha, levou algum tempo até ser atendida, mas não se preocupou, continuou ali parada, como se soubesse que logo iam atender o interfone. E atenderam, ela se identificou e prontamente a pequena porta a sua frente se abriu. Subiu um lance de escadas, virou a esquerda. Uma porta estava aberta e um homem se apoiava no portal, como se esperasse aquela mulher há séculos. Ela passou por ele e entrou no apartamento. Andou rápido pela sala e quase flutuou quando passava pelo corredor. Quando se sentou na cama, o homem, alto e forte, já estava na porta do quarto, olhando para ela. A mulher começou a se despir, tirando primeiro os sapatos, fazendo o contrário do que a maioria das mulheres fazia naquele lugar, tirando a roupa de baixo pra cima. Ele tirou os sapatos quando ela já estava nua, em pé, na sua frente. Ele parou e os dois se olharam por alguns minutos. A mulher, como se estivesse com os movimentos retardados por algum tipo de droga foi se abaixando aos poucos e deitou na cama. Nua, abriu os braços e fechou os olhos.

2 Comentários:
http://www.youtube.com/watch?v=M8UtlhIIy-g
a maioria das mulheres, não sei que parte tiram, só no cinema vejo isso. aqui é claire dennis, que continuaria numa ótima cena "romântica". Dalle!
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