Quinta-feira, Setembro 11, 2008

agora sinto... e vejo sons

O estranho é que o final realmente havia passado, foi o que todos pensaram, os créditos subiram de forma mais rápida que o normal, nem assim as luzes se acenderam. A grande nuvem negra que costumava nos acompanhar foi embora, deixando em seu lugar uma escuridão cinza, onde só podiam ser vistas pessoas e nada mais. As estações se passaram e como de costume não pudemos sentir. Meus olhos já não me pertenciam mais, era só um instrumento para que os outros se sentissem notados, um aparato externo onde os personagens desse e de outros contos podiam existir e se movimentar nos espaços vazios de cinza. E durante todo esse tempo foi assim que outros existiram para mim. Mais e mais estações imperceptíveis se passaram sem que uma única pudesse ser justa para aquelas pessoas mal construídas que brotavam em profusão diante daqueles Olhos que não eram de ninguém. Agora já se movimentavam mesmo sozinhos, buscando sempre a melhor posição para que esses personagens pudessem existir da melhor forma, sem que nunca precisassem me olhar. Eu também não olhava para eles, quem olhava eram os Olhos, eu, como alma, era só um suporte para Eles. Um dia duas portas foram abertas. Algumas bocas se abriram junto, a escuridão cinza havia ido embora e os olhos voltaram a ser meus. Pessoas direcionavam o olhar para mim, caminhavam em minha direção como se conseguissem me ver, como se as luzes tivessem sido acesas após os créditos. Todos em minha volta faziam perguntas, me apontavam, conversavam ao pé do ouvido, alguns até me tocavam para ver se realmente eu era feito de carne... e era. Aos poucos aprendi a falar e a reagir. Logo depois aprendi a sorrir, muito mais difícil foi arrancar sorrisos dessas pessoas, mas aos poucos até isso foi feito. Agora víamos as estações, mesmo que de fato elas não existissem. Pude ver os dias passando, diferenciar a luz do dia e a da noite, sentir o calor do luar estacionado acima do teto que nos dava alento. Aos poucos laços foram criados. Aos poucos comecei a pensar, uma alma foi sendo construída dentro de mim. E foi após o término dessa frágil construção, que está sempre a ponto de desmoronar, que fiquei cego.

E o tom de azul não faz diferença para quem é cego.

1 Comentários:

Blogger Gabilly disse...

Eu reli umas três vezes a parte final, depois que as portas foram abertas. Nem sei o que comentar, viu? Só sei que quero mais!

E postar sempre não faz diferença para quem é cego ;)

6:26 PM  

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